População de São Tomé e Príncipe - os Angolares
Os angolares são uma parte importante da população de São Tomé e Príncipe e têm uma história rica, caracterizada pela resiliência, identidade cultural e desafios constantes. Compreender as suas origens, o desenvolvimento da sua comunidade e a sua integração permite uma compreensão mais profunda da dinâmica social e do património cultural das ilhas.
A população crioula de São Tomé e Príncipe é constituída por descendentes de escravos africanos e colonos portugueses que vivem nas ilhas há gerações e desenvolveram uma cultura e uma língua únicas. Este grupo compreende vários subgrupos , incluindo os Forros (descendentes de escravos libertos), os Mestiços (pessoas de ascendência portuguesa e africana) e os Angolanos. Todos estes grupos falam línguas crioulas e mantêm uma mistura de tradições europeias e africanas, essenciais para a compreensão da complexa dinâmica social das ilhas.
Origem e povoamento
Os angolanos são geralmente considerados descendentes de escravos angolanos que sobreviveram a um naufrágio por volta de 1540 e posteriormente se estabeleceram na região sul de São Tomé. Esta narrativa é corroborada por diversas fontes, entre as quais a Britannica e a Wikipédia, que confirmam a sua origem como sobreviventes deste desastre marítimo. No entanto, as discussões académicas também sugerem que os angolanos podem ser descendentes de escravos fugitivos (conhecidos como quilombolas) que resistiram aos proprietários das plantações durante o início do período colonial. Esta complexidade implica que a origem dos angolanos pode assentar em ambas as narrativas — a dos sobreviventes do naufrágio e a dos escravos fugitivos — que se foram misturando ao longo dos tempos.
Os documentos históricos do século XVIII referiam-se inicialmente aos angolanos como "Angolis" ou "Angolas", termos provavelmente derivados das suas supostas origens angolanas. No início do século XIX, adotaram o nome "Angolare", refletindo a sua identidade consolidada.

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Desenvolvimento de uma comunidade independente
O assentamento dos angolanos no sul de São Tomé fomentou o desenvolvimento de uma identidade cultural e linguística singular. Os seus dois séculos de isolamento permitiram-lhes manter a sua autonomia e formar uma comunidade distinta, separada de outras populações da ilha, como os forros e os mestiços. Falavam sobretudo o crioulo angolano, uma língua crioula de base portuguesa com influências bantas, falada hoje por aproximadamente 6,6% da população.
A vida económica dos Angolares baseava-se na pesca tradicional, e rejeitavam conscientemente o trabalho regular nas plantações (roças), considerando-o semelhante à escravatura. Esta resistência era parte essencial da sua identidade e contrastava com a do povo Forro, que estava mais integrado na vida das plantações e ocupava uma posição intermédia na hierarquia colonial.
Resistência ao controlo português
Um ponto de viragem na história angolana foi a significativa revolta do Rei Amador contra os governantes coloniais portugueses em 1570. Esta revolta, descrita em diversas fontes e uma luta pela autonomia, é comemorada todos os anos a 4 de Janeiro, data em que o Rei Amador é venerado como herói nacional. A resistência angolana continuou durante séculos, preservando um certo grau de autonomia até à ocupação do território pelas autoridades coloniais em 1878. Isto marcou o início de uma maior interacção com outros grupos populacionais, levando a alguma assimilação cultural, preservando ao mesmo tempo muitas das suas características socioculturais únicas.
Posição na hierarquia social
Dentro da estrutura colonial, os angolares ocupavam uma posição hierarquizada inferior à dos forros e dos colonos brancos, mas superior à dos trabalhadores contratados (serviçais). Os forros menosprezavam frequentemente os angolanos, considerando-os menos civilizados. Os angolares desempenhavam poucas funções, como o corte de madeira e o transporte de canoas, e trabalhavam pouco nas plantações. A sua população era relativamente pequena; à data da ocupação, em 1878, era de cerca de 2.000 pessoas.
Após a independência e integração
Após a independência em 1975, os Angolares receberam a cidadania plena e direitos iguais aos dos restantes grupos populacionais. No entanto, continuam a enfrentar desafios socioeconómicos, particularmente em zonas rurais como São João dos Angolares, que serve de centro cultural da sua comunidade. Este distrito rural apresenta taxas de pobreza mais elevadas, com uma parte significativa da população a viver abaixo do limiar da pobreza. Apesar disso, verificou-se alguma mobilidade e integração na sociedade de São Tomé e Príncipe em geral, embora persistam barreiras e desigualdades históricas. O património cultural dos Angolares mantém-se vibrante, caracterizado pelas tradições musicais, de dança e culinárias. Instrumentos tradicionais como o maraca e o tambor desempenham um papel vital nas suas danças expressivas. A sua integração na população crioula é evidente nas línguas e práticas culturais partilhadas, embora mantenham uma identidade própria, enraizada na sua resistência histórica e na economia baseada na pesca.
Razões para as dinâmicas culturais e sociais
Enquadramento histórico: As origens dos angolanos enquanto marinheiros náufragos e escravos fugitivos moldaram uma narrativa de resiliência e autonomia que continua a ser essencial para a sua identidade colectiva. Este contexto histórico influencia os seus valores comunitários, bem como as suas definições de liberdade e de trabalho.
Decisões económicas: A preferência dos angolanos pela pesca em detrimento do trabalho nas plantações solidificou a sua identidade enquanto comunidade distinta. Esta escolha permitiu-lhes desenvolver um estilo de vida que enfatizava a autonomia e a resistência à exploração colonial.
Preservação cultural: O isolamento de outros grupos crioulos favoreceu a preservação de características culturais e linguísticas únicas, como o crioulo angolano, diferenciando-os ainda mais dos forros e mestiços.
Resistência e solidariedade: Os levantamentos históricos e os esforços de resistência contra o domínio colonial, como a revolta liderada pelo Rei Amador, criaram um legado de resistência e solidariedade dentro das suas comunidades. Esta consciência de uma história partilhada fomenta a coesão e uma forte identidade cultural.
Desafios pós-coloniais: Embora os angolanos tenham conquistado a cidadania e os direitos após a independência, continuam a enfrentar desafios socioeconómicos que moldam a sua dinâmica social actual, incluindo a integração e a participação no desenvolvimento nacional.

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