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História de São Tomé: As Reformas Agrárias da década de 1990

As reformas agrárias dos anos 90 em São Tomé e Príncipe foram uma resposta crucial à ineficiência da agricultura controlada pelo Estado e visaram o reforço da posição económica da população. Embora estas reformas tenham alcançado alguns sucessos, como a redução da falta de terra e o aumento do número de pequenos agricultores, também apresentaram desafios, incluindo a baixa produtividade e a desigualdade persistente. 

Do controlo estatal à propriedade privada


Após a sua independência de Portugal, a 12 de julho de 1975, São Tomé e Príncipe nacionalizou todas as suas terras e estabeleceu grandes cooperativas agrícolas estatais. Estas cooperativas concentraram-se sobretudo no cultivo do cacau, mas apresentaram ineficiências significativas. Como resultado, a produção agrícola caiu de 10.000 toneladas anuais no início do século XX para menos de 1.000 toneladas em meados da década de 1980.

A economia do país, fortemente dependente das exportações de cacau, estagnou, levando a uma elevada taxa de desemprego e ao crescente êxodo rural. No final da década de 1980 e início da década de 1990, influenciado pelos programas de ajustamento estrutural do FMI e do Banco Mundial, o governo reconheceu a necessidade de uma economia orientada para o mercado. Estas reformas visavam corrigir as ineficiências no controlo estatal, redistribuir terras a agricultores individuais e promover a agricultura familiar para melhorar a produtividade e a segurança alimentar.

Objetivos e implementação

O programa de reforma agrária teve início oficialmente em 1991 com vários objectivos principais: Terra

Redistribuição: Transferência de terras do controlo estatal para a propriedade privada ou arrendamentos a longo prazo, divisão das grandes explorações estatais em lotes mais pequenos.

Fortalecimento dos pequenos agricultores: Promover a agricultura familiar para aumentar a produtividade, melhorar a segurança alimentar e reduzir a dependência das importações.

Justiça social: devem ser disponibilizadas terras aos antigos trabalhadores rurais, especialmente aos Criados, para reduzir a falta de terras e combater as desigualdades históricas enraizadas no sistema colonial de plantações. A implementação envolveu o levantamento topográfico e a titulação de terras, um processo complexo devido à falta de documentos claros de propriedade.

Em 1995, aproximadamente 8.735 agricultores tinham recebido títulos de propriedade ou arrendamentos de terras, com o apoio de assistência técnica e financiamento do Banco Mundial. O foco era a integração de indivíduos anteriormente sem terra na agricultura.

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Impactos e resultados das reformas agrárias da década de 1990


As reformas agrárias tiveram consequências mistas para o sector agrícola e para a economia em geral, resultando em efeitos tanto positivos como negativos:

Efeitos positivos:

  • Redução da falta de terra: As reformas conseguiram fornecer terra a muitas pessoas anteriormente sem terra, especialmente aos Serviçais, ajudando assim a integrá-las na agricultura e potencialmente reduzindo a pobreza rural.

Aumento do número de pequenos agricultores: As reformas levaram a um aumento das pequenas propriedades agrícolas, pelo que em 2019 cerca de 60% da população estava empregada na agricultura, marcando uma mudança no sentido de uma distribuição mais justa da terra.

Efeitos negativos:

  • Baixa produtividade: A fragmentação da propriedade da terra dificultou os esforços dos pequenos agricultores para alcançar economias de escala, resultando numa baixa produtividade agrícola. Apesar do número significativo de empregos no setor, a agricultura contribuiu apenas com cerca de 10% do PIB, evidenciando os desafios dentro do contexto agrícola.

  • Declínio da produção de cacau: Outrora um importante produto de exportação, a produção de cacau diminuiu à medida que os pequenos agricultores se esforçavam por igualar a produção das grandes explorações estatais. No final da década de 1990, a produção estabilizou em torno das 3.000 a 5.000 toneladas anuais, muito abaixo do pico de 35.000 toneladas em 1908.

Desafios contínuos:

Persistiram fragilidades estruturais no sector agrícola, incluindo o acesso limitado ao crédito, o apoio técnico insuficiente e a vulnerabilidade às alterações climáticas. Estes desafios impediram que as reformas atingissem os seus objectivos de aumento da produtividade e da segurança alimentar.

Situação atual e esforços em curso


As consequências das reformas agrárias dos anos 90 continuam a moldar o panorama agrícola de São Tomé e Príncipe. Os esforços actuais centram-se em colmatar as fragilidades identificadas durante estas reformas. O governo está a trabalhar com organizações internacionais como a FAO e o PNUD para melhorar a segurança da posse da terra, facilitar o acesso ao crédito e prestar serviços de aconselhamento agrícola.

Embora cerca de 60% da população ainda trabalhe na agricultura, este sector contribui apenas com cerca de 10% do PIB. Os esforços para diversificar a produção agrícola, com foco em culturas de elevado valor acrescentado, como o cacau e o café biológicos, estão a ganhar importância, e o turismo – particularmente o ecoturismo em campos históricos – tem-se revelado um potencial motor económico graças à ajuda externa. No entanto, persistem desafios significativos: as alterações climáticas e os eventos climáticos extremos, como as fortes chuvas de Dezembro de 2021, estão a prejudicar a produção hortícola e a agravar a pobreza rural.

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