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História de São Tomé: A Reforma Agrária de 1975 - Nacionalização

A reforma agrária de 1975 em São Tomé e Príncipe: nacionalização e cooperativas agrícolas estatais.


Enquadramento histórico e necessidade de reforma

As origens da reforma agrária de 1975 remontam ao período colonial de São Tomé e Príncipe, caracterizado pela forte dependência do cultivo do cacau em grandes plantações conhecidas por roças. Estas plantações eram predominantemente propriedade de colonizadores portugueses que exploravam escravos africanos e, após a abolição do trabalho escravo, trabalhadores contratados, os criados. A economia de plantação conduziu a uma rígida hierarquia social: os brancos ocupavam as posições mais elevadas, seguidos pela população crioula (forrós e mestiços), enquanto os trabalhadores africanos estavam na base da hierarquia social.

Após a independência, o MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe), impulsionado pelas ideologias socialistas, procurou transformar a economia através da nacionalização da terra e dos bens com ela relacionados. A partida da maioria dos colonizadores portugueses deixou o sector agrícola numa situação precária, tornando-se necessária a intervenção do Estado para manter a produtividade neste sector, crucial para a subsistência de mais de 60% da população. A reforma agrária de 1975 tinha como objectivo redistribuir a riqueza e o poder das elites coloniais para o Estado, representando assim os interesses da população e eliminando as ineficiências do sistema colonial de plantações.

Objectivos da reforma agrária de 1975


A reforma agrária iniciada em 1975 prosseguiu vários objectivos principais, que reflectiam as metas do MLSTP:

  1. Redistribuir a terra e a riqueza : Nacionalizar todas as terras anteriormente pertencentes às elites coloniais e transferir a propriedade para o Estado, de forma a garantir que os meios de produção são controlados pelo governo para benefício da nação.
  1. Melhoria das condições de trabalho: Os direitos e as condições de vida dos trabalhadores agrícolas que sofreram exploração no âmbito do sistema colonial devem ser melhorados e integrados em cooperativas estatais.

  1. Aumento da produção e da eficiência agrícola: Através do controlo e planeamento governamentais, procura-se alcançar uma maior produção agrícola de culturas importantes, como o cacau, de forma a reduzir a dependência de agentes estrangeiros.

  1. Promover a justiça social: Combater as desigualdades históricas, garantindo que as terras anteriormente pertencentes a um pequeno grupo de colonizadores portugueses são geridas coletivamente em benefício de todos os cidadãos, especialmente os que vivem em zonas rurais.

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Implementação da nacionalização e das cooperativas


A implementação da reforma agrária compreendeu duas medidas principais:

  1. Nacionalização de todo o país: Após a independência, o governo MLSTP declarou todas as terras como propriedade do Estado. Esta nacionalização, que ocorreu sem compensação significativa devido à emigração dos portugueses, foi formalizada por decretos e leis em 1975.
  1. Criação de cooperativas agrícolas estatais: Foram criadas cooperativas estatais nas grandes plantações de cacau, propriedade coletiva dos trabalhadores rurais que anteriormente cultivavam estas terras. O governo forneceu a estas cooperativas apoio administrativo, recursos e infraestruturas para envolver os trabalhadores nos processos de tomada de decisão e garantir uma distribuição justa da produção agrícola. O foco manteve-se no cacau, com alguma diversificação para culturas alimentares como a banana e a fruta-pão.

Os trabalhadores da antiga Roças, muitos deles Serviçais, tornaram-se membros de cooperativas ao abrigo deste sistema, que visava eliminar as práticas exploratórias da era colonial.

Desafios e Resultados


A criação de cooperativas estatais enfrentou diversos desafios, resultando em diferentes desfechos:

  1. Falta de gestão qualificada: A saída de especialistas agrícolas portugueses deixou um vazio de gestão, uma vez que muitos forros assumiram tarefas administrativas sem a formação necessária. Isto levou a ineficiências na gestão da cooperativa.
  1. Corrupção e ineficiência: O comportamento neopatrimonial dentro da nova elite do Forro contribuiu para a corrupção e para o uso indevido dos recursos, minando os objectivos da governação cooperativa.
  2. Declínio da produção agrícola: A produção agrícola, particularmente a de cacau, diminuiu significativamente devido à ineficiência do sistema cooperativo estatal. Em meados da década de 1980, a produção tinha descido para menos de 1.000 toneladas anuais, evidenciando os desafios decorrentes da reforma.
  3. Impactos sociais e económicos : Embora as reformas agrárias tivessem como objectivo melhorar as condições de trabalho, muitos trabalhadores agrícolas, particularmente os Serviçais e Angolares, permaneceram na pobreza. Na década de 1990, metade da população continuava a viver abaixo do limiar da pobreza e a estagnação económica persistia apesar dos esforços para aumentar a produtividade.

Desenvolvimentos futuros e o legado

As dificuldades enfrentadas pelas cooperativas estatais abriram caminho a novas reformas agrárias na década de 1990. Uma nova iniciativa de reforma agrária, apoiada pelo Banco Mundial e pelo FMI, foi lançada em 1991 com o objectivo de redistribuir as terras do Estado aos agricultores individuais, particularmente os antigos trabalhadores rurais. Isto envolveu o levantamento topográfico e a emissão de títulos de propriedade, resultando em aproximadamente 8.735 agricultores a receberem títulos de propriedade ou arrendamentos de terras até 1995.

As consequências da reforma agrária de 1975 continuam a moldar significativamente o sector agrícola de São Tomé e Príncipe. De acordo com o relatório anual de 2021 do Banco Central, o sector agrícola emprega cerca de 60% da população, mas contribui apenas com 10% para o PIB, evidenciando os desafios persistentes da baixa produtividade. Os esforços para promover culturas de elevado valor acrescentado, como o cacau e o café biológicos, bem como as iniciativas turísticas focadas no ecoturismo e nas roças históricas, prosseguem – com diferentes graus de sucesso.

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