
História de São Tomé - a economia do cacau
A história do cultivo do cacau em São Tomé e Príncipe reflecte os amplos desenvolvimentos sociais, económicos e políticos das ilhas — desde a introdução do cultivo do cacau no início do século XIX até aos esforços actuais para o revitalizar. À medida que o país se esforça por conciliar a sua rica herança agrícola com os desafios da modernidade, o cultivo do cacau continuará a ser uma parte essencial da sua identidade e futuro económico.
A economia do cacau em São Tomé e Príncipe
São Tomé e Príncipe, um pequeno arquipélago no Golfo da Guiné, possui uma rica tradição agrícola moldada pelas políticas coloniais portuguesas e pela dinâmica do mercado global. Esta visão geral examina a história da indústria do cacau desde os seus primórdios no início do século XIX até à sua importância atual, oferecendo informações valiosas tanto para especialistas em turismo como para historiadores.
Introdução e desenvolvimento inicial
A indústria do cacau em São Tomé e Príncipe teve início em 1819, quando o comerciante português João Carlos de Silva introduziu as mudas de cacau vindas do Brasil. O primeiro cacaueiro do Príncipe atingiu a maturidade plena em 1824. O clima equatorial das ilhas, com as suas chuvas abundantes (1.500 a 2.000 mm anuais), oferecia condições ideais para o cultivo do cacau e contrastava fortemente com os desafios da era da cana-de-açúcar, que dominou as ilhas nos séculos XVI e XVII. Embora o café já tivesse sido introduzido em 1787 pelo padre brasileiro João Antonio do Couto, o cacau rapidamente o suplantou como principal fonte de rendimento devido à sua maior rentabilidade e adequação às condições das ilhas. Reconhecendo o potencial do cacau para o desenvolvimento económico, o governo português investiu em infraestruturas no final do século XIX. Isto abriu caminho ao aparecimento das "roças", grandes sistemas de plantação operados por empresas portuguesas e dependentes de mão-de-obra africana.

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O auge da indústria do cacau
Em 1908, São Tomé tornou-se o maior produtor mundial de cacau, com uma produção anual de 35.000 toneladas. Devido à elevada qualidade do seu cacau Amelonado, as ilhas ganharam a alcunha de "Ilhas do Chocolate". As roças auto-suficientes constituíam a espinha dorsal da economia local e incluíam hospitais, escolas e igrejas. Após a abolição da escravatura em 1875, empregaram milhares de trabalhadores contratados (serviçais) de Angola, Cabo Verde e Moçambique.
A integração do cultivo do cacau com o cultivo de outras culturas, como a banana e a fruta-pão, contribuiu para a segurança alimentar e levou ao seu reconhecimento como património agrícola de importância global em 2024. No entanto, a indústria do cacau não esteve isenta de controvérsia; surgiram relatos de trabalho forçado e maus-tratos a trabalhadores africanos, o que levou a boicotes internacionais aos produtos de cacau de São Tomé por parte de fabricantes como a Cadbury.
Durante este período, prevalecia na sociedade uma rígida hierarquia racial, com os colonizadores portugueses no topo, seguidos pelos forros e mestiços, enquanto os criados ocupavam o degrau mais baixo da escala social. Esta hierarquia reforçava a segregação espacial e social nas ilhas.
Declínio e desafios após a independência
A independência de São Tomé e Príncipe em 1975 marcou um ponto de viragem para a indústria do cacau. O Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP) nacionalizou as plantações de cacau, levando a maioria dos colonos portugueses a abandonar as ilhas por temerem um governo comunista. Esta transição resultou num declínio drástico na produção de cacau: devido à má gestão e à falta de conhecimentos técnicos, a colheita caiu de 35.000 toneladas em 1908 para aproximadamente 5.000 toneladas no final do século XX.
Os desafios económicos decorrentes das secas, dos métodos agrícolas insustentáveis e da dependência da ajuda ao desenvolvimento persistiram, embora o cacau ainda representasse 95% das exportações no final do século XX. No entanto, a concorrência de países produtores de cacau de maior dimensão, como a Costa do Marfim e o Gana, aumentou significativamente durante este período.
As iniciativas de reforma agrária da década de 1990 visavam redistribuir as terras da Roça aos antigos Serviçais, o que ajudou a reduzir algumas disparidades socioeconómicas, mas a plena integração e a igualdade permaneceram inatingíveis.
Situação atual e esforços de recuperação
Ainda em 2025, a indústria do cacau desempenha um papel vital no panorama agrícola das ilhas. Os esforços para a revitalizar centram-se na agricultura sustentável e em práticas de comércio justo. O governo, juntamente com organizações internacionais como a FAO, reconheceu a importância de preservar o património agrícola das ilhas. Antigas plantações de cacau, como o Monte Café e a Água Izé, foram transformadas em atrações turísticas, exibindo arquitetura histórica e oferecendo visitas educativas.
Embora a produção de cacau tenha estabilizado em torno das 3.000 a 5.000 toneladas anuais , o foco está cada vez mais na produção de cacau biológico de alta qualidade para se manter competitiva em nichos de mercado . A herança cultural da indústria do cacau é ainda palpável; festivais e a música local remetem para a época das plantações.
Apesar destes esforços, desafios como as alterações climáticas e a disponibilidade limitada de terras aráveis continuam a ter impacto na produção de cacau. Estima-se que, até 2025, aproximadamente metade da população viva abaixo do limiar da pobreza, afectando particularmente os ex-serviçais e os angolanos nas zonas rurais.

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