São Tomé - a população Forró
A população Forro em São Tomé e Príncipe
A população Forro é constituída maioritariamente por descendentes de escravos africanos que conquistaram a liberdade após a abolição da escravatura no final do século XIX. O termo "Forro" vem do português e significa "livre" ou "emancipado". Embora se refira especificamente aos libertados da escravatura, é também utilizado de forma mais ampla para incluir mestiços descendentes de colonos portugueses e mulheres africanas. Esta dupla utilização complica a compreensão da identidade Forro, uma vez que algumas fontes sugerem que abrange ambos os grupos, particularmente a elite mestiça proprietária de terras.
O povo Forró fala o crioulo Forró, uma língua crioula de base portuguesa que é parte essencial da sua identidade cultural. Aproximadamente 36,2% da população fala esta língua. Acredita-se que o crioulo Forró se tenha desenvolvido a partir de línguas pidgin utilizadas durante o tráfico de escravos e, mais tarde, tornou-se a língua principal de muitos filhos de pais portugueses e mães africanas escravizadas.

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Desenvolvimento histórico da população de Forro
A história do povo Forró está intimamente ligada à economia colonial das plantações do final do século XV. Inicialmente, as ilhas concentravam-se no cultivo da cana-de-açúcar, que dependia fortemente do trabalho escravo africano, e passaram a cultivar café e cacau no século XIX. Durante os séculos XVII e XVIII, com o declínio da presença europeia devido à concorrência do açúcar brasileiro, as ilhas foram largamente controladas pela elite mestiça, os Forrós ou "Filhos da Terra", que possuíam vastas propriedades e escravos. Embora a escravatura tenha sido oficialmente abolida por Portugal em 1836, a aplicação da proibição foi inadequada e persistiram formas de trabalho forçado até ao início do século XX. A sociedade Forró estava dividida numa elite de grandes proprietários, pequenos agricultores e descendentes sem terra de imigrantes africanos mais recentes.
O regresso dos europeus no século XIX teve um impacto significativo na elite forró, levando a tensões e violência, como exemplificado pelo massacre de Batepá em 1953, em que muitos forrós foram severamente perseguidos. Após a independência em 1975, a população forró, particularmente uma nova elite formada dentro das suas fileiras, ganhou influência na política e na economia. No entanto, este período foi também marcado por significativas convulsões políticas, incluindo nacionalizações e a introdução do socialismo, que contribuíram para a instabilidade e a desestruturação económica.
A identidade cultural do povo Forro, moldada pela música, dança e língua, é de importância central para a nação. O seu crioulo, cujas raízes se encontram nas línguas Bantu e Kwa, testemunha a sua herança diversificada. No entanto, há quem defenda que os valores culturais profundamente enraizados — ao contrário de Cabo Verde, onde a homogeneidade cultural impulsionou o desenvolvimento — têm dificultado a formação de uma identidade nacional unificada e o progresso colectivo.
O papel de Forro no período pós-independência
Desde a independência que a população forró tem desempenhado um papel dominante na vida política e económica de São Tomé e Príncipe. Muitos membros da nova elite adoptaram práticas neopatrimoniais e exploraram recursos estatais para benefício próprio. Isto tem dificultado o desenvolvimento sustentável e contribuído para a contínua instabilidade política, uma vez que várias mudanças políticas e convulsões económicas têm dividido a sociedade.
Contudo, a população Forro contribui significativamente para a identidade nacional através das suas práticas culturais e património únicos, com muitas antigas plantações a servirem agora como destinos turísticos.
A população de São Tomé e Príncipe está estimada em cerca de 238.684 habitantes em 2025, sendo a população forró uma parcela significativa. Os debates sobre os seus valores culturais permanecem polarizados; alguns vêem-nos como um obstáculo ao desenvolvimento, enquanto outros os valorizam como parte da resiliência nacional. Além disso, a crescente prevalência do português como língua principal ameaça a sobrevivência do crioulo forró. As comunidades da diáspora começam a redescobrir o crioulo forró como marcador de identidade e a enfatizar a sua importância.
Um aspecto fascinante da discussão em torno da identidade Forro é a interpretação alargada do termo "Forro". Embora os Forros sejam frequentemente definidos em inquéritos como descendentes de escravos libertos, a inclusão de elites mestiças nesta definição realça a fluidez das categorias étnicas e culturais em contextos pós-coloniais. Esta complexidade inesperada expande a nossa compreensão da identidade Forro e do seu impacto no tecido social de São Tomé e Príncipe.

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