pt

Tipos e desenho das Roças em São Tomé 

Espalhados pela paisagem de São Tomé e Príncipe, encontram-se os vestígios desgastados de um mundo passado: as roças , extensos complexos de plantações que outrora constituíam a espinha dorsal económica, social e arquitetónica da vida colonial. Não se tratam meramente de ruínas agrícolas. As roças representam uma fusão singular de princípios de design brasileiros, africanos e portugueses, que evoluíram ao longo dos séculos para uma arquitetura distinta e única no mundo. Para os visitantes que hoje exploram as ilhas, compreender o sistema de roças revela camadas de história, cultura e inovação arquitetónica que ainda se refletem em paredes em ruínas, avenidas tomadas pela vegetação e edifícios coloniais reaproveitados.

O termo "roça" traduz-se literalmente como "plantação" ou "quinta", mas no contexto de São Tomé e Príncipe, refere-se a algo muito mais complexo: povoações auto-suficientes que funcionavam como cidades em miniatura, proporcionando habitação a milhares de trabalhadores, instalações industriais, hospitais, escolas, capelas e redes de transportes. No seu auge, durante o domínio colonial português, estas propriedades agrícolas moldaram a economia e a sociedade das ilhas, organizando o espaço, o trabalho e a própria vida em torno do cultivo de produtos de exportação — inicialmente cana-de-açúcar, mais tarde café e cacau.

Muitas roças encontram-se hoje abandonadas ou apenas parcialmente habitadas; o seu antigo esplendor colonial deu lugar à vegetação tropical, que está a recuperar estes antigos símbolos do poder imperial. Contudo, o seu ADN arquitetónico foi preservado, oferecendo aos visitantes um acesso tangível à história multifacetada das ilhas – da colonização e do trabalho forçado às inovações agrícolas e, finalmente, à independência.

VÍDEO: Em 2025, um senhor regressa à Roça do Mundo (São Tomé) passados ​​39 anos, acompanhado pelo seu amigo de infância Ganga, o antigo "Moleque da Roça". Chegou em 1963, com 18 anos, cheio de sonhos, mas em vez de uma viagem em primeira classe, encontrou apenas dívidas, administradores brutais, açoites, mordeduras de cobra e trabalho escravo sob o domínio português. Lembram-se da fome, da comida estragada e do medo.

Hoje, os mesmos trabalhadores vivem sem eletricidade, mas a terra pertence-lhes. Cultivam inúmeras variedades de bananas, as galinhas circulam livremente e uma alegria e um orgulho genuínos brilham nos seus rostos. Apesar da pobreza e da escuridão da noite, vê apenas pessoas sorridentes, sente uma profunda saudade e diz: "Esta terra permanece no meu coração. As pessoas amorosas são felizes – ainda vale a pena voltar aqui."

O coração de cada Roça: O Terreiro


Cada campo, independentemente da sua dimensão ou complexidade, organizava-se em torno de um elemento arquitetónico unificador: o terreiro (pátio ou praça). Este espaço aberto central funcionava como um núcleo vital onde convergiam mercadorias, produtos, proprietários e trabalhadores.

O Terreiro desempenhou diversas funções importantes:

  • Centro económico – O local mais importante para a secagem de grãos de cacau, café ou outros produtos colhidos.
  • Centro administrativo – local de reuniões diárias dos trabalhadores e pagamento de salários.
  • Ponto de encontro social – local para festas, comemorações e eventos comunitários.
  • Declaração visual – Uma manifestação física da hierarquia e do controlo colonial.

Arquitetonicamente, o terreiro era tipicamente retangular; o seu projeto tinha raízes na cultura mediterrânica e fazia lembrar as praças tradicionais portuguesas ou os pátios das villas romanas. Edifícios importantes – a casa principal , o hospital, a capela ou os edifícios administrativos – estavam estrategicamente dispostos em redor do perímetro do terreiro, enfatizando a sua localização a hierarquia social vigente.

O terreiro não era apenas um espaço funcional, mas uma arquitetura ideológica. A sua abertura permitia vigilância e controlo. A sua localização central obrigava todas as atividades da plantação a convergirem para um único ponto monitorizado. Os trabalhadores não podiam contornar esta área e, por isso, estavam constantemente visíveis para os supervisores e gestores. Mesmo em ruínas, os terreiros são ainda reconhecíveis como áreas rectangulares abertas, rodeadas por alicerces de pedra mais maciços, sobre os quais se erguiam outrora importantes construções.


Três tipos de evolução: da quinta à cidade


Com a crescente maturidade e intensificação da agricultura de plantação em São Tomé e Príncipe, as estruturas da Roça evoluíram em complexidade e dimensão. Este desenvolvimento deu origem a três tipos arquitetónicos distintos, cada um representando uma abordagem cada vez mais sofisticada à organização da produção agrícola e da estrutura dos aglomerados humanos.

Tipo 1: Roça-Terreiro (plantação de pátio)

Este representa o modelo de povoamento mais simples e difundido por todo o arquipélago – a forma básica da Roça, a partir da qual se desenvolveram padrões mais complexos.

Princípio organizacional: Todas as estruturas estão agrupadas em torno de um terreiro central, formando assim um complexo compacto e unificado.

Vantagens: O projeto Roça Terreiro demonstrou uma notável flexibilidade, adaptando-se facilmente a diferentes terrenos e tipos de produção. A sua simplicidade permitiu uma implementação rápida, sem necessidade de planeamento extensivo ou suporte técnico. Colinas, vales, planícies costeiras – o esquema básico da quinta funcionava em qualquer lugar.

Escala: Comparativamente a outros tipos de Roça, estes complexos eram tipicamente mais pequenos e funcionavam como complexos de uma só quinta, onde todos os edifícios importantes permaneciam à vista da praça central.

Exemplos: Roça Paciência e Roça Inhame ilustram esta tipologia. Os visitantes de hoje podem percorrer o perímetro destes terreiros em poucos minutos e, assim, imaginar facilmente como toda a operação de cultivo se concentrava em torno desta área central.

Analogia: Podemos imaginar o Roça-Terreiro como uma quinta familiar tradicional onde todas as actividades – espaços habitacionais, armazenamento, processamento – se agrupam em torno de um pátio central. A partir daí, tudo é visível e acessível.

Tipo 2: Roça-Avenida (plantação de avenida)

Com a crescente experiência no cultivo e processamento do cacau, os produtores perceberam que as operações de maior dimensão exigiam uma organização espacial mais precisa. Desta compreensão apurada das rotinas diárias e da logística agrícola, nasceu a Roça-Avenida.

Princípio organizacional: Um eixo central ou avenida ( eixo orientador ) serve como "espinha dorsal" estrutural ( espinha dorsal ) e liga vários terreiros e complexos de edifícios num arranjo linear.

Design sofisticado: Este tipo de casa caracteriza-se por uma planta bem pensada, ausente nos modelos mais simples da Roça Terreiro. A avenida central estendia-se frequentemente por centenas de metros, criando vistas impressionantes. Tipicamente, o eixo terminava num grande portão de entrada ou num edifício imponente – elementos arquitetónicos que enfatizavam a grandiosidade e a estrutura da propriedade.

Simetria e hierarquia: Os edifícios e anexos estavam dispostos simetricamente ao longo da avenida, criando uma ordem visual que enfatizava a hierarquia social. A mansão do proprietário podia formar uma das extremidades, as instalações industriais a outra, enquanto as habitações dos trabalhadores, os edifícios administrativos e as infraestruturas sociais eram dispostos de acordo com a sua importância.

Exemplos: A antiga Roça Rio do Ouro (hoje Roça Agostinho Neto) é considerada o exemplo mais impressionante do modelo Roça Avenida em São Tomé e Príncipe. Outros exemplos notáveis ​​incluem Diogo Vaz, Pinheira e Queluz.

Analogia: Imagine a Roça-Avenida como uma aldeia planeada, disposta ao longo de uma rua principal. A avenida central estrutura tudo; pátios, edifícios e instalações estão organizados numa sequência deliberada ao longo dessa artéria principal.

Tipo 3: Roça-Cidade (plantação municipal)

A Roça-Cidade representa o auge da complexidade das plantações – verdadeiros aglomerados urbanos que albergavam milhares de habitantes e funcionavam como comunidades autossuficientes.

Princípio organizacional: Em vez de um único pátio ou de uma avenida reta, a Roça-Cidade desenvolveu-se numa rede de ruas, jardins e numerosas praças com diferentes funções. Isto assemelhava-se ao processo de crescimento orgânico das cidades reais ( urbes ), onde a infraestrutura se expandia para acomodar o crescimento populacional e as crescentes exigências de produção.

Características distintivas: Em contraste com as hierarquias estabelecidas dos tipos de roça mais simples, a cidade-roça crescia frequentemente sem um planeamento rígido. A distribuição funcional do espaço habitacional, das instalações sociais e dos locais de produção era mais orgânica e orientada para as necessidades imediatas do que para os planos directores pré-determinados. À medida que a plantação se expandia, novos blocos habitacionais para trabalhadores ( sanzalas ), hospitais adicionais, armazéns, oficinas e empreendimentos comerciais eram construídos.

Comodidades urbanas: As grandes cidades da Roça possuíam uma infraestrutura que podia competir com as cidades regionais: várias capelas ou igrejas, escolas, hospitais (alguns deles bastante avançados – o antigo hospital de Roça Porto Real, embora agora abandonado, já foi um importante centro médico), lojas e até opções de entretenimento.

Redes de transportes: As maiores cidades de Roça investiram em infraestruturas de transporte interno. Algumas construíram caminhos-de-ferro de via estreita (tipo Décauville, 60 cm) para transportar a produção dos campos até aos portos. A Roça Porto Real mantinha 30 quilómetros de carris, e a Roça Sundy operava 9 quilómetros. Imagine caminhos-de-ferro industriais em miniatura a serpentear pelas plantações, com locomotivas a vapor a transportar cacau e café até aos navios que aguardavam.

Exemplos: Roça Água Izé é considerada a roça-cidade mais representativa do arquipélago. Localizada numa zona costeira que necessitava de um amplo desenvolvimento, Água Izé expandiu-se e tornou-se um complexo extenso com vários bairros, um segundo hospital, novos blocos habitacionais para trabalhadores e diversas instalações de produção, incluindo armazéns e fábricas de sabão. O Monte Café é também considerada uma roça-cidade de uma escala excepcional.

Analogia: A Roça-Cidade funcionava como um pequeno assentamento fabril ou cidade industrial – um ambiente urbano auto-suficiente orientado para a produção agrícola em vez da manufactura. Numerosos pátios e eixos estavam ligados por uma complexa rede viária, formando uma verdadeira estrutura urbana.


A hierarquia: bens principais e dependências satélites


Para além da sua tipologia arquitetónica, as Roças estavam organizadas em hierarquias funcionais dentro da rede agrícola colonial mais ampla.

Roça-Sede (plantação principal)

Estas propriedades principais possuíam a dimensão e as infraestruturas necessárias para uma autossuficiência quase completa. Serviam como os mais importantes centros administrativos e industriais e controlavam frequentemente vastos territórios e numerosas propriedades subsidiárias.

Características:

  • Maiores fábricas com milhares de trabalhadores
  • Infraestrutura social completa (hospitais, escolas, capelas)
  • Instalações de processamento industrial de última geração
  • Centros administrativos para redes regionais de plantações
  • Correspondia muitas vezes à tipologia arquitetónica Roça-Cidade

Exemplos: Rio do Ouro (Agostinho Neto), Água Izé e Porto Alegre funcionaram como Roça-Sede.

Dependências

As pequenas plantações satélites estavam sob a supervisão de uma Roça-Sede ou eram independentes e auto-suficientes. Muitas vezes especializavam-se na produção complementar – criação de gado, produção de copra ou venda rápida de determinadas culturas.

Função: As explorações de dependência permitiram que grandes redes de plantações se expandissem para áreas periféricas ou especializassem a produção sem a necessidade de construir uma infraestrutura completa em cada local. Uma exploração deste tipo podia empregar 50 a 200 trabalhadores que se concentravam numa cultura ou actividade específica e entregavam os produtos à Roça-Sede para posterior processamento e exportação.

Evolução: Muitos antigos povoados dependentes desenvolveram-se em comunidades independentes após o fim do domínio colonial. Hoje, estas microssociedades mantêm as suas identidades distintas; as suas origens como cidades satélites das plantações são ainda reconhecíveis nos padrões de povoamento e na arquitetura.

Exemplo: A Roça Fernão Dias funcionou como filial da enorme Roça Rio do Ouro.


Componentes arquitetónicas: Os edifícios que formavam a Roça


Durante o passeio de hoje pelas ruínas das plantações da Roça, destacam-se as estruturas que se repetem, cada uma desempenhando funções importantes na economia da plantação:

Casa Principal (Casa Principal) – A residência do proprietário, geralmente o edifício arquitetonicamente mais impressionante, estava localizada em posição de destaque no terreno. As vilas coloniais caracterizavam-se por varandas amplas, tetos altos, mobiliário importado e adaptações ao clima tropical, como paredes espessas e sistemas de ventilação.

Sanzalas ou Comboios – alojamentos para trabalhadores, geralmente edifícios compridos semelhantes a quartéis, com um espaço habitacional individual mínimo. Estes edifícios contrastavam fortemente com a Casa Principal e manifestavam a hierarquia social que caracterizava a vida nas Roças.

Instalações agroindustriais – plataformas de secagem, casas de fermentação, armazéns, instalações de triagem, edifícios de embalagem e oficinas onde os produtos colhidos eram processados ​​antes da exportação.

Infraestruturas sociais – capelas (frequentemente com um design surpreendentemente elaborado, algumas ainda em funcionamento nos dias de hoje), escolas (maioritariamente com equipamento simples) e hospitais (que variam entre enfermarias simples e extensas instalações médicas).

.